Outros Olhares

Photography… or a sort of

(#52) Há um banco no jardim

Posted by LB on 19/04/2008

18 Responses to “(#52) Há um banco no jardim”

  1. Sol da Meia Noite Says:

    Maravilha de imagem!
    Não só o banco, também a árvore, tantas histórias contam em silêncio…

    Um beijinho

  2. cris Says:

    O Jardim

    Era exímio na arte de bem cuidar do jardim.
    Tantas vezes o iam encontrar ajoelhado, acariciando uma folha, roçando a pontinha do dedo indicador com cuidado sobre a face da pétala de uma rosa.
    Ao fim da tarde, no Verão, quando o sol já não apertava, a senhora descia e vinha sentar-se no banco, e por ali ficava.
    Por vezes permanecia calada, tricotando a vida que passara, desfazendo uns pontos, passajando outros.
    Ele sabia que ela gostava de se sentar ali, de olhar as flores.
    Na hora de retornar a casa, ia acordá-la, de mansinho, dizendo que já estava anoitecendo e que ela se poderia constipar.
    A velha senhora levantava-se, subia as escadas e desaparecia, sem nunca antes deixar de lhe fazer um aceno, aquele “amanhã eu venho” de que ele gostava tanto, tanto!
    Outras vezes? Outras vezes ela estava faladora e fazia perguntas que o faziam contar mil e tantas histórias das suas “princesas”!
    -Olha, já viste? Aquela está mais murchita!
    -Não, minha senhora! Ela está é a pensar na melhor forma de me convencer a mudá-la de sítio…
    -Disparate! As flores não pensam! Eu estou a ficar velhota, mas olha que tu não me ficas atrás! Triste porque quer mudar de sítio! Tens cada uma!…
    -É verdade! Não vê que ali, naquele outro canteiro, está um girassol que não deixa de a olhar?
    -Ai! Não querem lá ver? Agora as flores também se perdem de amores?
    E era ver os dois a conversar.
    Depois ela voltava para o seu mundo, sentada no banquinho e ficava a olhar, de olhos postos no longe…

    O jardineiro continuava na sua lida e lá conversava com a sua “menina” e convencia-a que tinha que ficar naquele espaço um pouquinho mais, para que as suas filhinhas crescessem…
    -Ah! Que linda! Matizada! Nunca tinha visto uma rosa assim! Mas aqui à volta só há rosas vermelhas! Como pode esta ter saído assim?
    -Pois é, senhora! Sabe lá o que elas são capazes de fazer por baixo da terra!…
    E sorria, maroto.
    -Quer que a corte e leva-a para a por numa jarra?
    -Não! Nem penses! Sabes que aqui é que elas estão bem.
    Lá em cima morreriam, tal como eu, quando subo a escada, ao cair da noite…
    O velho jardineiro olhou-a. Há muito que não a vinham visitar. Chegara a conversar com a mulher, em casa, como seria que ela se arranjaria, assim, tão só?
    Havia dispensado a criada, os filhos nunca mais vieram e do senhor…apenas o lenço que ela trazia sempre preso com um alfinete, como se fosse uma jóia.
    -Mas nunca lhe perguntaste nada sobre isso?
    -Aquela senhora é de pouca conversa. Vive naquele casarão, e desde que o senhor se foi, a alegria desapareceu dos olhos dela. Chego a perguntar-me o que irá ser de tudo quando ela se for.
    -Mas paga-te bem! Terá por certo quem cuide dela, dos dinheiros. E olha que não terá pouco, a ver pelo tamanho da casa, do sítio onde está.
    -Pois se há, eu nunca vi por ali ninguém! E deixa-me ir, que já vão sendo horas e tenho a sebe para aparar.

    Havia muitos carros estacionados defronte da casa.
    Gente que ele nunca tinha visto, muita criança a passear pelo jardim, as janelas abertas e uns homens a conversar, a gesticular até que um lhe veio perguntar quem ele era.
    -Trato deste jardim há um bom par de anos e como podem ver, tenho o maior orgulho nas minhas plantas.
    -Que saibamos as plantas não são suas!
    -Maneira de falar! A senhora sempre me dizia que achava que eu cuidava tão bem das rosas que pareciam ser minhas!
    -Pois, mas a senhora já cá não está e a casa vai ser demolida e…
    -Como a senhora já cá não está? Mas ainda ontem me disse que hoje voltava. Ela volta sempre!
    Os homens olharam-no, entreolharam-se:
    -Mas conheciam-se assim tão bem?
    O jardineiro ficou por momentos sem conseguir articular palavra!
    “Acaso estaria aquela gente a pensar o quê???”
    -Sempre me tratou com o maior respeito, sempre!
    Incapaz de perguntar aquilo que mais receava que tivesse acontecido, olhou em volta, procurando o banco.
    Vazio…
    Não, vazio, não!

    Pediu licença, deixou os dois a conversar, ainda os ouviu falar em guindastes, piscina para os miúdos, mas os seus olhos fitavam um pontinho branco.
    Aproximou-se mais e viu então o lenço, preso ao alfinete.
    Ao lado, havia uma folhinha de papel cuidadosamente dobrada.
    Não quis saber se o olhavam, sequer nisso pensou. Sentou-se e abriu. Caíram-lhe duas pétalas da rosa matizada no colo…

    Meu bom Amigo,

    Eu disse que a rosa morreria se a cortasses tal como eu morria cada vez que eu subia a escada quando a noite chegava…
    Não estranhes ver tanta gente aqui em casa! Provavelmente ouvirás que será demolida, transformada. Cuidei que pudesses continuar a ter as tuas flores. Foste um fiel companheiro das minhas horas.
    Deixo-te o endereço de alguém que sempre tratou das minhas coisas. Ele te dará todas as indicações e ajudar-te-á para que tu e a tua mulher possam ter uma casa com um jardim.
    Promete-me apenas uma coisa. Que conseguirás ter uma outra rosa matizada pois que aquela outra, eu cortei, para levar comigo, quando percebi que havia chegado a hora de subir a escada.
    Perdoa não te ter acenado nem te ter dito que voltaria.
    Para onde vou, haverá um jardim, mas poderás ter a certeza que não será tão bonito nem tão bem cuidado como este o foi, por ti, e, rosas matizadas haverá apenas esta, que trarei sempre comigo.
    Guarda esse casal de pétalas.
    Sabes lá do que elas são capazes de fazer?…
    Estou a ver-te sorrir, Amigo. Recordas-te daquela tua história? A graça que eu te achei!
    Deixo-te o lenço e o alfinete.
    És sem dúvida a pessoa mais indicada para ficar com eles, pois assim, quando os olhares, saberás que estarei sentada no banco, no teu jardim, a ver-te falar com toda a ternura com as tuas princesas.
    Não chores, não sintas pena, porque parto feliz.
    Trabalhaste para mim um bom par de anos. Quem te contratou foi o meu marido e, penso agora, imaginando como vou terminar este meu recado, sem haver lugar a despedidas, que sempre me trataste por senhora, que nunca me perguntaste o nome.
    Com muito apreço por todos estes anos de boa companhia, ao único jardineiro que conheci que falava com as flores,

    Rosa

    Dobrou a folha com muito cuidado, pegou no lenço alvo de neve, quase tão alvo como os cabelos da senhora e saiu.
    Na carteira, junto à fotografia da sua mãe, colocou as duas pétalas de rosa.
    Ainda ouviu que por ele chamavam.
    Não quis saber.
    Não olhou para trás, não olhou as escadas. Levava com ele a imagem daquela que foi tão sua amiga, que o olhava, sentada naquele banco de jardim e quando chegou a casa, abraçou a sua mulher e chorou…

    Perdoa-me a enormidade do comentário, mas,não resisti.
    Seria esta a fotografia perfeita para este conto.
    Bom fim de semana para ti e os teus
    Líndissimo este banco!

    Beijo,

    Cris

  3. maria Says:

    Posso sentar-me e ficar a olhar este B&W lindíssimo?

    Beijo

  4. Fatyly Says:

    “Há um banco no jardim…” que sempre que passo por ele ocupo-o, delicio-me com a paisagem e fico piursa por ser o alvo predilecto da passarada.
    Esta foto está linda, mas gostaria de a ver “a cores”.

    Quando puderes vai até lá já que tu serás a pessoa mais indicada para me ilucidares sobre uma questão :)

    PS: não podia ficar indiferente ao comentário da Cris, a minha fiota mais nita :)

    Um resto de domingo feliz e chuvoso, porque para muitos é incómodo mas não se esqueçam que a capacidade da captação da mesma já está quase nos 80%. Ufa…o verão está salvo :)

  5. Graça Pimentel Says:

    Um lugar tão lindo e o banco vazio? Estava molhado, pela certa.

    Beijinho

  6. LB Says:

    Sol,
    Sim, quantas histórias não conhecerão, quantos segredos, quantas promessas não escutaram? Quantos bons momentos não proporcionaram? Quantas desilusões não aconchegaram?

    Cris,
    Sem jeito agora eu… Como comentar um comentário assim? O que dizer senão que me sinto orgulhoso de teres incluído aqui este belíssimo conto. E quão insignificante que, de repente, a foto me parece! Ou deverei dizer que ganhou outra dimensão?
    Um momento alto este. E gratificante!

    Maria,
    Senta-te e fica à vontade. É meu privilégio!

    Fatyly,
    Pois, e quem poderia ficar indiferente a um texto destes?

    Graça,
    Não, não estava. Parece é que cada vez menos se passeia e se desfruta dos bons recantos que ainda existem por aí… prefere-se outros poisos, julgo, mais “vistosos”…

    Beijinhos

  7. Paula Crespo Says:

    Gosto da luz e da composição. Tem um ar antigo…
    Parece-me o Jardim Botânico (mas pode ser noutro lugar, claro… ;)
    Bjs

  8. JA Says:

    Espectacular a tonalidade do banco, realçando-o, em contraste com a árvore. Ou como motivos simples e nada rebuscados podem dar excelentes fotos. Gosto muito.

    Um abraço

  9. JA Says:

    Voltei para dizer que estive a ler o texto (que de comentário tem pouco) da Cris. Belíssimo conto, digno de uma grande escritora que, acredito, a Cris será.
    Peço-te desculpa de usar este espaço assim mas, o texto é demasiado belo para o deixar passar sem uma referência. Fez-me lembrar Mia Couto…

    Outro

  10. ka Says:

    Belíssima esta fotografia…e um desperdício este banco vazio, ideal para se ler um livro num fim de tarde de primavera onde o calor ainda não é demasiado para incomodar :)

    Beijinho e boa semana

  11. Natalie Says:

    Líndo!
    Adoro fotos assim, simples e bonitas!

    Tenho uma tão parecida…. ;)

    Temos bom gosto! Hehe!

  12. cris Says:

    Luis, eu já tenho este conto há tempos. Na altura foi para o site sem qualquer foto.
    Quando vim aqui ver(sabes que ganhaste uma fã, verdade!) olhei a foto e fiquei deliciada. Era mesmo aquilo que faltava, entendes?
    Desculpa ter usado o espaço. De forma alguma quis promover o meu espaço. Mas achei que irias gostar de ver como um conto consegue não se tornar redundante com uma foto.Completou-o. E tal como senti, nem pensei duas vezes, e, quis dar-to como se fosse o espaço onde se está, daqui, “deste lado”, a ver uma foto, um momento lindíssimo!
    Quanto ao que disse o JA, quem dera eu, um dia, escrever como o Mia Couto!
    Bom que tenhas gostado. Foi uma forma de te dizer que gosto imenso do teu trabalho!
    Quando vieres a Braga, prometo-te uma visita ao Museu de Imagem, com um fotógrafo que também adoro (o meu irmão…ehehehe)e vais ver um levantamento de muitas fotos da já desaparecida Foto Aliança! Notável! Tenho o livro.
    Basta que me dês o teu endereço que terei imenso prazer em oferecer-to.
    Bom, não te maço mais…rsss
    Beijo, Luis
    Bom resto de dia com boas imagens.

  13. Gi Says:

    Belíssima a imagem, belíssimo também o conto da Cris que não resisti à leitura. Homem afortunado tu, que te mimam assim :)
    mereces !

    Deixo eu também aqui um poema do Nuno Júdice para dar corpo à tua imagem . Um grande para outro grande :)

    Ao cair da Noite

    No banco do jardim, como numa sala de espera,
    pergunta se alguém virá para a buscar, antes
    que a noite chegue. E eu, do outro lado do tempo,
    abro o caderno para lhe escrever: «Um dia
    saberás o que disseram todas as cartas
    que não abriste; e perante o vazio a que
    a tua vida se resume, responderás que
    pouco importa o tempo, quando a eternidade
    te cobriu com a sua noite, há muito.»
    Depois, vou ao correio. «Esqueceu-se
    de pôr a morada», diz-me o empregado.
    «Não sei para quem escrevo», digo-lhe.
    E meto na caixa o envelope em branco
    para que alguém, um dia, o descubra num
    fundo de posta restante. E ao ler o que
    lhe escrevi, talvez se sente num banco
    de jardim, pouco antes da noite, pensando
    no que é a vida em que todo o futuro se
    fixa nesse instante que não chegou a ser.

    Nuno Júdice

    Beijinho

  14. Rosa dos Ventos Says:

    E apetece ficar aqui a descansar…
    Vou mesmo sentar-me um pouquinho!

    Abraço

  15. LB Says:

    Paula,
    Sim, pode ser outro qualquer belo lugar como esse… :)

    J,
    Obrigado. Estás à vontade!

    Ka,
    Então não? Especialmente com calor… já imaginaste a bela e fresca sombra que por ali pode haver?

    Natalie,
    Nem mais! Somos pessoas de bom gosto pois. :)

    Cris,
    Ninguém pensou que te estivesses a promover… A foto ganha outra dimensão com um texto assim. Pena eu não conseguir juntar letras assim…

    Gi,
    Um belo poema do Júdice realmente, obrigado. Com as maravilhas que vocês têm a amabiliade de aqui pôr, a foto parece fazer sentido…

    Rosa,
    Senta-te, descansa. É um prazer!

    Um Abraço a todos

  16. sinedoque Says:

    Posso sentar-me neste belo recanto?
    É que uma anemia veio ao meu encontro e preciso de um lugar tranquilo para falar com ela e convencê-la a abandonar este corpo que só enxerga bancos para descansar.
    Logo, logo estarei a correr por aí.Agradeço a preocupação.

    Beijinho

  17. LB Says:

    Sine,
    Espero que essa visita se ponha a milhas rapidamente! Pode ser que este recanto contribua…

    Beijinho

  18. Renata Medeiros Says:

    linda!
    Adoro P&B, mas essa ficou mesmo gira! traduz um silêncio e desncanso este local!

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